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E do amor nasce a vida, matéria publicada no jornal Correio Brasiliense em dezembro de 2005

Religiosa mantém abrigo com 130 crianças desamparadas pela violência

Marcelo Abreu
Da equipe do Correio
Irmã Ângela cuida de todos como se fossem seus filhos, e chora quando ficam tristes ou alguma coisa os desagrada

Edilson Rodrigues/CB

A menina magricela de 13 anos, sem seios, sarda no rosto, olhar de criança e jeito desengonçado de criança, carrega no ventre uma gestação de três meses. Nem sabia que estava grávida. E ainda mais uma gravidez de alto risco. Ela foi violentada pelo companheiro da mãe. A irmã dela, de 11 anos, também sofreu abuso sexual. O menino de 7 anos, irmão das duas meninas, assistia a toda a violência contra as irmãs. Teve que silenciar para não apanhar. A menina de 11 anos chora. Os olhos castanhos amendoados são sempre muito tristes. Ela tem medo do escuro, de gente desconhecida e ainda, apesar de todos os sonhos violentados, acredita em Papai Noel. A menina grávida ainda brinca de boneca e faz dela sua filha de mentirinha. E o menino de 7 anos, arredio e assustado, sonha com um carrinho de controle remoto.

O que os três têm em comum, além de serem irmãos e viverem histórias de vidas dilaceradas? São, há 15 dias, os mais novos moradores da Creche e Abrigo da Sagrada Face de Jesus Cristo, instituição do Jardim Ingá, periferia de Luziânia (GO). O lugar atende crianças de 0 a 16 anos de idade, que chegam ali por meio dos Conselhos Tutelares da cidade. São meninos e meninas amparados pela Vara da Infância e da Juventude. Só o juiz decidirá o futuro de cada um deles.

No abrigo, as histórias são as mais comoventes. E quem as ouve todos os dias é uma mulher mirradinha, cearense, determinada, mil planos e um sonho concreto que acalentou a vida inteira: cuidar de crianças desamparadas. Há quase uma década, irmã Ângela Maria Silva, de 36 anos, montou um barracão em pleno Jardim Ingá. Era para ser apenas uma creche que cuidaria de meninos e meninas bem carentes. O barracão virou uma casa de alvenaria. E, junto à creche, nasceu um abrigo. Hoje, são 130 crianças que ali passam (na creche) ou vivem (no abrigo). Dezesseis voluntários ajudam a cuidar da meninada.

No meio de tanta história despedaçada, irmã Ângela quer reconstruir vidas. Não tem sido fácil. As marcas da violência não saem facilmente da alma. Algumas crianças chegam aqui e choram muito. Outras não falam nada. Depois, vão se acostumando com o lugar e até sorriem, comemora a religiosa. E admite: Só falto me acabar no choro quando acontece alguma coisa triste com eles. Enquanto conversa, seus filhos como ela os chama correm e brincam pelo abrigo. Viram apenas crianças.

Sonhando com a Barbie

De repente, duas irmãs, uma de 10 e outra de 9 anos, sentam-se à mesa. As duas foram violentadas pelo próprio pai. Vivem ali há três anos. E nunca mais receberam visita da mãe. A mais nova, de tão traumatizada, nem falava. Hoje, sonha até com a Barbie que o Papai Noel disse que lhe daria no Natal. Ele me garantiu que sim. E ele não mente, diz ela, referindo-se ao velhinho de vermelho.

E lá vêm dois irmãos da pesada. Um é a cara do outro. O de 4 anos é mais espevitado. O de 5, mais caladinho. O pai deles morreu de Aids. A mãe luta contra a doença. Os irmãos, milagrosamente, foram salvos do vírus. Sem ninguém para cuidar das crianças, os dois pararam na Sagrada Face de Jesus Cristo.

No meio de tanta conversa, chega uma menininha loira de 10 anos de idade, linda, olhos acesos, falante e bem-humorada. Ela vive no abrigo desde os dois anos de vida. Foi morar ali porque o pai espancava a mãe e, eventualmente, ela própria. A mãe quase nunca a visita. Os contatos ficam cada vez mais distantes. O abrigo virou seu lar e sua família. Desinibida, a menina que reaprendeu a viver revela: Aqui é a minha casa. E a irmã Ângela é a minha mãe. Sobre o presente de Natal, ela não tem dúvida do quer ganhar: Uma boneca Barbie linda, um prendedor de cabelo e uma presilha. Depois, ela emociona mais ainda o interlocutor: O que me derem eu aceito do fundo do meu coração. A menininha linda sabe mesmo comover.

Naquela casa no Jardim Ingá, que resiste apenas pela ajuda de voluntários, vidas fragmentadas e traumatizadas estão sendo reconstruídas. O sonho de uma irmã permitiu que outras crianças também sonhassem e vivessem. Permitiu até que acreditassem em Papai Noel. Ainda há uma esperança de que alguma coisa, apesar de tanto sofrimento, faz sentido.


 

 
 
 
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